A sorveteria Janju

Fliperamas

Crédito: Dori Prata/Stable Diffusion

No entanto, enquanto nos Estados Unidos aquelas máquinas estavam disponíveis no que podemos chamar de salões de diversões eletrônicas, por aqui a situação era bem diferente. Especialmente em lugares mais pobres e já perto do final da década de 80, os gabinetes podiam ser encontrados em lugares pouco atrativos e até mesmo inóspitos, principalmente para o público mais novo.

Sem acesso aos fliperamas que víamos em filmes norte-americanos da época, restava aos brasileiros terem que se aventurar por pequenos comércios de bairros ou pior, botequins, onde dividiam espaço com frequentadores que passavam o tempo ali bebendo, jogando conversa fora e eventualmente se envolvendo em confusões.

Aquela era uma experiência marcante, comum em várias partes do Brasil e que colocou aqueles que só queriam jogar mais uma partida em situações perigosas e algumas vezes engraçadas, como lembra Gustavo “Tango” Vasconcelos.

Hoje com 45 anos e Engenheiro de Suporte, ele nasceu no Recife e cresceu em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana da capital de Pernambuco e onde durante a infância frequentou, com seu irmão Rômulo, uma sorveteria em que existiam algumas máquinas. Porém, o local também era “habitado” por um público mais velho e que não estava tão interessado nos jogos eletrônicos.

“O fliperama que mais definiu o nosso caráter foi a Janju Sorveteria, que era uma sorveteria e à noite virava bar,” recorda Tango. “Do lado tinha outro espaço para loja e lá [a Janju] colocava as máquinas de fliperama. Então, ficavam os adultos bebendo e fumando de um lado, e a molecada jogando fliperama do outro.”

Fliperamas

Crédito: Dori Prata/Stable Diffusion

“Foi o que realmente passei a maior parte do tempo, mas tinha outros também, no outro quarteirão, mas que era basicamente a mesma coisa,” explicou. “Esse não era sorveteria, era somente um bar e tinha duas máquinas: uma era Final Fight e a outra era Mortal Kombat; e Mortal Kombat, meio que explodiu, virou uma coisa grande, então ele acabou tirando a gente um pouco da Janju.”

Segundo Tango, o comum entre os dois estabelecimentos era o fato de as crianças e adolescentes dividirem espaço com os típicos frequentadores de bares. “Existe um romantismo quando o arcade não era o objetivo final do estabelecimento. Mas, 30 anos depois, eu me lembro desse estabelecimento por causa do arcade,” garante.

Outro problema com que os jogadores entrevistados precisavam conviver era o risco. Do caminho para chegar aonde os fliperamas estavam, normalmente localizados em bairros com maior desigualdade social, até permanecer nas lojas, era preciso estar sempre atento. “[Alguém] bater carteira era clássico, então você colocava as coisas no bolso da frente, não nos bolsos de trás, porque se você botasse no bolso de trás…,” conta com um ar de sagacidade. “Quando uma máquina era muito conhecida — ou alguém estava jogando muito bem — juntava aquele pessoal ao redor e com certeza alguma coisa ia desaparecer.”

Contudo, os fliperamas não eram formados apenas por pontos negativos. Para Gustavo, “é impossível não mencionar o fator social que [os fliperamas] tinham,” assim como o ambiente multiplayer muito diferente do que vemos hoje na internet. “Imagina se você, num fliperama como esse, tivesse a atitude tóxica que muitos jogadores têm em um Call of Duty Warzone da vida, em um League of Legends… então a toxicidade se resolvia na base da porrada, porque você estava lá ao vivo e a cores.”

O que muitos aprenderam nos fliperamas foi que sempre existiria alguém mais habilidoso (e maior), como salienta Tango. “Você competia no Street Fighter, estava jogando, chegava um cara lá — nas palavras da época, um galalau com o dobro do seu tamanho — e metia uma ficha e ia te tirar. E você saía, era o fim para você,” explicou. “Não tinha essa toxicidade, porque não poderia ter, porque ninguém é louco de falar ao vivo e a cores as coisas que fala [online]. Então acho que é um ponto positivo ainda mais que a gente coloca nos fliperamas, pois as pessoas estavam juntas e como tal, agiam de forma muito civilizada, independentemente se o local não era o que a maioria das pessoas considerava como seguro ou recomendável.”

Crédito: Reprodução/Adobe Stock

Após tanto tempo passado naquele ambiente, muitas vezes sem nem ter dinheiro para comprar fichas e assim apenas tentando a chance de disputar uma partidinha, Gustavo e seu irmão passaram a fazer parte da molecada que incomodava os novatos. Aquilo rendeu a Rômulo o apelido de “Cheira”, uma provocação oriunda do termo Cheira-cola, mesmo com a dupla contando com uma situação socioeconômica privilegiada.

Certo dia, os irmãos se viram numa situação típica dos menores que frequentavam fliperama no início da década de 90, que foi ver sua mãe indo até o bar para tirá-los carregados pelas orelhas. A partir daquele dia, quem também ficou conhecida entre os parceiros de jogatina foi a lenda da “brava mãe de Cheira.”

Tudo isso ajudou a marcar Gustavo, a ponto de ele sempre se lembrar do local que frequentou durante sua infância. “Quando pego meu carro e saio da zona norte onde moro e vou para além da zona sul, onde os meus pais estão morando, todas as vezes, todo sábado que isso acontece, passo pela rua, boto a mão na minha mulher e falo, ‘Ó, ali é a Janju Sorveteria’, relembra com saudosismo. “Todo sábado, ela já sabe onde é, porque todas as vezes eu sempre lembro daquele lugar, tenho um carinho muito grande por aquele lugar.”

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Pai em tempo integral do pequeno Nicolas, enquanto se divide escrevendo para o Meio Bit Games e Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.