Da praia ao porão
Mais de 3.500 km ao sul, na cidade catarinense de Criciúma, os irmãos Michel Alisson (45) e Thiago Henrique (43) da Silva também se apaixonaram cedo pelos fliperamas. Mas isso não aconteceu onde moravam, mas sim em Balneário Rincão, onde a família costumava ir durante as férias de verão.
Num determinado dia, enquanto voltavam da praia, a dupla viu um grupo de pessoas aglomeradas numa sorveteria e ao se aproximarem, viram que numa área separada havia várias máquinas. Dentre elas estava uma nova, com seis botões e que depois eles descobriram ser o Street Fighter II.
Outra semelhança com Tango está nos relatos sobre como o ambiente desses estabelecimentos não eram recomendáveis, principalmente para crianças e/ou adolescentes.
“Enquanto no shopping era um pouco mais frequentável, com um pouco mais de zelo, de cuidado, no calçadão já era mais aberto, então a gente se encontrava lá, por exemplo, com o pessoal que era engraxate que ficava no centro da cidade, o pessoal que era office boy,” relembra Michel, graduado em Direito e doutor em Desenvolvimento Socioeconômico.
Ele também falou sobre “o porão”, lugar que ficava em frente ao terminal de ônibus da cidade e era frequentado por todo tipo de público. Lá era relativamente comum ver moleques ameaçando e roubando as fichas dos menores, mas não se resumia a isso. “Já teve episódio, um colega nosso, por exemplo, que foi assediado por pedófilo dentro do fliperama,” contou.
Já Thiago, formado em Ciências da Computação, recordou a dificuldade de acesso que eles tinham àquelas máquinas. Morando longe do colégio em que estudavam, eles preferiam ir e voltar a pé do colégio, só para poder aproveitar o valor da passagem no fliperama. “Às vezes a gente saia, andava 10 km para jogar uma ficha,” conta. “Então assim, a gente tinha que arquitetar tudo na nossa cabeça, que personagem ia pegar, o que nós íamos fazer e tal.”
Essa otimização do tempo e saber aproveitar oportunidades de estarem perto dos jogos foi algo que os colocou em situações engraçadas. De praticamente ignorar as muitas atrações da Disney, até “esquecer” o batizado de um sobrinho, tudo porque Michel e Thiago encontraram uma loja com alguns gabinetes perto do evento e perderam a noção do tempo enquanto jogavam. Quando chegaram na igreja, a cerimônia já estava acabando.
Outra situação comum entre os frequentadores de fliperamas era a tentativa de burlar o sistema que nos dava a possibilidade de jogar uma nova partida. Como na época as máquinas eram alimentadas com fichas de metal, muitos jogadores tentavam replicar o tão “valioso” item, com a cópia sendo quase a busca pelo Santo Graal.
Para ter acesso a um crédito, o jogador precisava inserir a ficha numa pequena abertura localizada na frente do gabinete e conforme a força da gravidade fazia seu papel, o peso daquela peça parecida com uma moeda com várias ranhuras acionava um gatilho. Assim, alguns tentaram inserir os mais variados objetos naquele “cofre”, quase sempre falhando em conseguir jogar de graça.
Essas imitações iam desde fichas feitas com o alumínio de latas de refrigerantes, que acabavam de chegar ao mercado, até, acredite, cópias feitas com gelo. Também eram comuns relatos de fichas originais amarradas com uma cordinha, para os criativos trapaceiros tentarem puxá-las de volta e assim conseguir créditos virtualmente infinitos.
Mas a verdade é que toda dificuldade que cercava os fliperamas, dos próprios jogos, sempre feitos para nos fazer perder, até o acesso àqueles estabelecimentos, parecem ter feito com que uma geração se tornasse mais resiliente. Pelo menos é no que acredita Michel.
“Fliperama fez a gente aprender mais rápido sobre as dificuldades, sobre os problemas,” defendeu. “[Hoje os jogos contam com] continue infinito. Na época não tinha isso, tinha que pagar para ter continue infinito. O pessoal [mais jovem] não está acostumado a lidar com grandes problemas, grandes dificuldades, a falhar.”
Contudo, Michel pondera: “a gente vem de uma geração que era mais saudável? Provavelmente não, mas [o fliperama] ajudou a moldar bastante, em termos do que é o caráter, a lidar com a dificuldade e ter relacionamentos.”