Resistindo, décadas depois

Crédito: Reprodução/Adobe Stock

Mas se os fliperamas como conhecemos há algumas décadas nunca mais voltarão, algumas pessoas estão dispostas a se dedicarem a manter viva essa parte da história dos games. São grandes organizações e museus, como o The Strong National Museum of Play ou o The National Videogame Museum, mas também pequenos grupos ou até indivíduos que acreditam que as novas gerações precisam ter acesso àqueles jogos.

São iniciativas como a Barcade, uma rede de bares nascida em 2004 e que mistura gabinetes de fliperamas, máquinas de pinball e cervejas artesanais. Hoje ela possui lojas espalhadas por nove cidades dos Estados Unidos e fatura também com a venda de produtos que carregam seu nome e logo.

Ironicamente, hoje muitos fliperamas nos Estados Unidos apostam numa ideia que foi comum por aqui nas décadas de 80 e 90, que é disponibilizar os jogos num mesmo ambiente regado a bebidas alcoólicas. Porém, se no Brasil tudo se tratava de uma questão de oportunidade, lá os arcades são apenas uma maneira de aproveitar o saudosismo do público.

“Somos um bar com jogos, a maioria das nossas coisas vieram dos anos 80, porque é disso que gostamos,” explicou Paul Kermizian, um dos fundadores do Barcade e que admite que o faturamento das lojas vem mesmo das cervejas, não dos jogos.

Crédito: Reprodução/Louie Castro-Garcia/Unsplash

E para aproveitar essa onda, alguns empresários brasileiros estão investindo pesado em bares com esse ar retrô, como é o caso do Bario Bar, localizado no bairro Pinheiros–SP. Já para quem procura uma opção mais “raiz” e está em Curitiba, o lugar ideal atende pelo nome Arcademia. A loja nasceu do sonho dos irmãos Ricardo e Gilliard Santos em ter seu próprio fliperama, surgindo por uma combinação de fatores.

Tudo começou por volta de 2017, quando eles conheceram o emulador Fightcade. As sessões de jogatina fizeram com que a dupla entrasse em contato com uma comunidade de apaixonados pelo Super Street Fighter 2 Turbo e quando descobriram que algumas dessas pessoas eram de Curitiba e região, decidiram fazer um encontro.

Após convidarem cerca de dez pessoas, os organizadores ficaram assustados com o comparecimento de três vezes esse número. Os jogadores levaram consoles e computadores, com o sucesso os motivando a fazer outras dessas reuniões. Porém, eles sentiram que faltava algo: um fliperama.

Ricardo então decidiu procurar uma dessas máquinas para comprar. Sem conhecimento da área, ele adquiriu um gabinete simples, mas que lhe deu bastante dor de cabeça. Sempre que consertava algo, outra parte apresentava problema. Mas o que poderia ter feito com que o sonho se tornasse um pesadelo, serviu de experiência.

Com a ajuda de um amigo, ele começou a aprender como o aparelho funcionava e a fazer as devidas manutenções. Então, outros encontros aconteceram e o gabinete passou a se tornar o centro das atenções, até que o mundo fosse assolado pela pandemia de COVID-19 e o isolamento social fosse instaurado e aquilo abrisse uma oportunidade.

Vasculhando sites como o OLX, Ricardo conseguiu encontrar vários fliperamas sendo vendidos por valores muito abaixo do preço normal e ele não perdeu a oportunidade. Começou a investir na compra de máquinas, reformar e vendê-las. Com o valor arrecadado ele pôde adquirir outras e logo sua coleção cresceu — especialmente a de “Big Blues”, como são carinhosamente conhecidos os gabinetes da Capcom.

Crédito: Reprodução/Adobe Stock

O próximo passo nesta saga foi publicar alguns vídeos na internet mostrando as máquinas, o que o levou a receber mensagens de pessoas dizendo que gostariam de conhecer o espaço, dando o pontapé inicial para a Arcademia. Já o seu nome, sugerido por um amigo da dupla, se deve ao fato de as máquinas dividirem espaço com uma academia de artes marciais.

Na época os irmãos participavam da Liga Brasil SSF2X, dedicada ao Super Street Fighter II X, e embora Curitiba já tivesse eventos de grande porte nessa área, como o Treta Championship, eles aconteciam esporadicamente. Desta forma, o desejo de medir forças com outros jogadores os levou a organizar seus próprios campeonatos presenciais (e que podem ser acompanhados pelo canal da Arcademia no YouTube).

“Esse campeonato aqui é para fortalecer o fliperama, para vir aqui, trocar ideia, dar risada,” conta Ricardo. “É a nostalgia, viver os amigos e manter viva essa chama. Pela diversão mesmo.”

Nota:
A entrevista foi gravada poucos minutos antes da realização de um campeonato de Street Fighter Zero 2 que reuniu cerca de 40 competidores e levou várias outras pessoas à loja.

Atualmente a Arcademia abre apenas aos sábados, das 13h às 19h, com os frequentadores comprando um passe e tendo acesso livre aos fliperamas, computadores e consoles disponíveis no local. Os campeonatos acontecem da mesma forma, com os jogadores pagando uma taxa pela inscrição e os primeiros colocados recebendo certas quantias.

No entanto, os irmãos Santos lutam para manter essa paixão, chegando a tirar dinheiro dos próprios bolsos para manter a loja funcionando.

“Se você fizer contas de gasto, energia, equipamento, material, tempo, manutenção — que é uma coisa difícil —, [a conta] não bate,” afirma Ricardo. “A gente tem um clube que os associados pagam uma taxa por mês e podem jogar, podem vir nos sábados jogar à vontade. Isso é uma ajuda, mas, mesmo assim, é muito pouco.”

Mas esse é um cenário muito diferente do registrado até meados da década de 90. Ricardo lembrou o caso de um senhor que morava nas redondezas e que na época colocou duas máquinas em sua casa, Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time e The Simpsons, ambas suportando até quatro jogadores simultâneos. A procura por aqueles jogos era tão grande, que o homem contou ter chegado a vender quatro mil fichas por semana, o que lhe permitiu construir toda a vida em torno daqueles títulos da Konami.

O que também não pode ser comparado com a Arcademia é o ambiente das lojas de antigamente. Ricardo foi mais um a citar o risco de frequentar alguns fliperamas, especialmente aqueles localizados no centro de Curitiba. De pessoas drogadas até histórias de abuso de crianças, era preciso saber lidar com situações perigosas, o que, segundo ele, acabou deixando muita gente mais… “Casca-grossa”.

Fliperamas

Estimativa de fliperamas restantes no mundo (Crédito: Reprodução/Freepik/Dori Prata)

Arcademia - Ainda não jogamos a última ficha

Endereço: R. Paraíso do Norte, 148 – Boqueirão, Curitiba–PR, 81750-060

Telefone: (41) 99664-9643

Horário de funcionamento: Sábados, das 13h às 19h

Instagram | Facebook | Youtube 

Páginas ( 7 de 9 ): Anterior1 ... 56 7 89Próxima
http://www.vidadegamer.com.br
Pai em tempo integral do pequeno Nicolas, enquanto se divide escrevendo para o Meio Bit Games e Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.