Preservando o passado

Manter uma loja inteira ou mesmo um gabinete funcionando está longe de ser a realidade da maioria dos apaixonados pelo assunto e para essas pessoas, existem duas maneiras de se conectar com aquele saudoso passado.

A primeira delas é através da aquisição oficial de jogos antigos, quase sempre de forma digital, seja nos consoles ou computadores. Empresas com vastos catálogos e que fizeram muito sucesso nos arcades quando eles estavam no auge costumam vender seus clássicos. São gigantes como Capcom, Taito, Konami, Sega e Namco, que cientes do interesse do público mais velho, disponibilizam — através de coletâneas ou até individualmente — os títulos que marcaram nossas infâncias.

Nessa área, uma empresa que tem se destacado pela qualidade dos jogos entregues e pela dedicação em vasculhar o catálogo de outras editoras, é a Hamster Corporation. Com sua sede em Setagaya, Tóquio, ela publicou o primeiro título da marca Arcade Archive em maio de 2014 e desde então, disponibilizou mais de 400 jogos lançados originalmente nos arcades.

Double Dragon, um dos clássicos presentes na linha Arcade Archive (Crédito: Reprodução/666gonzo666/MobyGames)

Hoje a Arcade Archive está disponível no Nintendo Switch, PlayStation 4 e PlayStation 5. Já no Xbox One, Xbox Series, Windows Store e dispositivos Android e iOS, encontramos apenas os títulos pertencentes à subsérie ACA NeoGeo. E a acessibilidade tende a crescer, pois a Hamster anunciou que em breve lançará a linha de NeoGeo para o PlayStation 5 e Xbox Series S|X, com os jogos contando com suporte a partidas online.

Ainda assim, a limitação nos leva a um sério problema da distribuição oficial daqueles clássicos. Por mais que muitos sucessos do passado estejam disponíveis nas plataformas de distribuição digital, ainda existem muitos outros que permanecem “esquecidos”, normalmente por questões envolvendo diretos autorais.

Só para ficar no caso da Capcom, hoje não temos como adquirir alguns dos melhores Beat ‘em ups produzidos pela empresa, como The Punisher, Alien vs. Predator e Cadillacs and Dinosaurs. O comum entre eles? Todos baseados em propriedades intelectuais de terceiros e sobre as quais a desenvolvedora japonesa não possui mais os direitos de exploração.

Assim, coube aos fãs fazerem aquilo que as editoras não puderam ou quiseram, que foi se dedicarem à preservação dos jogos. E sem dúvida, o principal movimento nesta direção surgiu em 1997, com o lançamento do Multiple Arcade Machine Emulator, ou simplesmente, MAME.

A emulação — oficial ou não — tornou os jogos arcades mais acessíveis (Crédito: Divulgação/8BitDo)

O projeto que revolucionaria a emulação começou com Nicola Salmoria. Num primeiro momento, a ideia daquele programador italiano era preservar os jogos pertencentes à família Pac-Man, mas logo ele percebeu que poderia dar o mesmo tratamento a outros jogos. Porém, o serviço militar obrigatório faria com que Salmoria deixasse o desenvolvimento, com Mirko Buffoni assumindo seu posto.

Tendo o MS-DOS como foco, com o tempo o emulador ganharia versões para outros sistemas operacionais, com atualizações significativas acontecendo mensalmente. Depois, devido ao seu sucesso e filosofia de código aberto, a comunidade se encarregaria de levar o MAME para diversos consoles, celulares, navegadores, PDAs e acredite, até câmeras fotográficas digitais.

O tempo e o esforço dos fãs também permitiram que o emulador passasse a receber diversas melhorias, como suporte a múltiplos processadores e rodar jogos zipados.

Contudo, não resta dúvida de que o maior legado deixado pelo MAME está na democratização dos fliperamas. Graças a ele, muitos entusiastas do ramo passaram a construir seus próprios gabinetes e se antes as máquinas encontradas em alguns botecos rodavam apenas um jogo, agora elas podiam contar com centenas, milhares deles.

A interface nwMAME, para MacOS (Crédito: Reprodução/nwMAME)

E se durante muito tempo o emulador assustou possíveis usuários pela sua interface rudimentar, atualmente é possível driblar essa barreira recorrendo a aplicações conhecidas como front-ends. Programas como o RetroArch ajudaram a popularizar os emuladores, com seus diversos níveis de customização nos tornando possível uma navegação mais intuitiva pela biblioteca. Com ele o usuário pode ter acesso às imagens dos jogos, sinopses, logotipos, capa, o número de jogadores possíveis e até mesmo pequenos vídeos que mostram a jogabilidade, indo muito além de exibir apenas os nomes dos clássicos.

Pois foi o sucesso do MAME que levou os arcades a se tornarem o foco de vários outros emuladores importantes, como o FinalBurn Alpha, muito famoso entre os apaixonados pelos jogos arcades produzidos pela Capcom e SNK; o Daphne, que emula jogos com gráficos que impressionaram na década de 80 por rodarem em LaserDiscs, como Dragon’s Lair, Space Ace e Cobra Command; ou o VivaNonno, voltado às produções da Namco criadas para a placa System 22 e que por enquanto roda apenas dois títulos: Ridge Racer 2 e Rave Racer.

Quanto ao MAME, por entregar desempenhos muito próximos do original e por se tratar de um sistema livre, algumas empresas chegaram a utilizá-lo para oferecer seus clássicos em máquinas modernas, com alguns dos desenvolvedores do emulador acabando contratados para esses projetos.

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Pai em tempo integral do pequeno Nicolas, enquanto se divide escrevendo para o Meio Bit Games e Vida de Gamer, tenta encontrar um tempinho para aproveitar algumas das suas paixões, os filmes, os quadrinhos, o futebol e os videogames. Acredita que um dia conseguirá jogar todos os games da sua coleção.